Tem o Rudi e tem o Nei – Por Dra. Neneca

Um dos nossos queridos hospitais esteve passando por uma situação nada fácil nos últimos tempos, tinha risco de fechar e, para se manter em funcionamento, enquanto guerreiros colaboradores seguiam por lá, tinha que ter pacientes. Apesar de todo o cenário, um paciente em especial também precisava ficar ali: o Rudinei. Ele sempre esteve lá e nos diz que é a sua casa. Se tornou o ‘refém’ mais feliz que poderia ser.
Durante uma das nossas visitas percebemos que ele não era um só paciente, mas sim o Rudi e o Nei. E de lá pra cá ele assumiu bem a dupla identidade. Mesmo com toda a sua dificuldade de oratória, a gente entende bem quando se trata de um ou de outro. Meio Ruth e Raquel, sabe? (talvez não seja do seu tempo). 
A verdade é que a risada do Rudi (e do Nei) ecoou por meses sendo o único som de alegria em uma imensidão de paredes, equipamentos e salas vazias.  Agora, com o Hospital se reinventando, seguimos na torcida para que ele encontre mais pessoas para apresentar a dupla identidade.

Ovo – Por Dra. Cri Cri

Primeiramente, deve-se explicar que os Doutores Besteirologistas estão orientados a recusar presentes, comidas, balas, chocolates, etc., dados pelos pacientes. Assim, como nenhum dos Drs. deve presentear com guloseimas os pacientes que são visitados.

Estabelecido assim, para o próprio benefício do nosso espectador maior: o paciente. Afinal não sabemos o histórico, os motivos que o fazem estar ali e qual a sua dieta estabelecida pela medicina tradicional.  Profissionalismo, não é mesmo!?

Nosso propósito é doar: sorrisos e amor! O presente é receber a atenção do olhar e os mais variados sorrisos.

Tudo bem explicadinho?

Poooorém, toda regra tem sua exceção, ou não?!

Uma situação atípica se instalou na atmosfera hospitalar.

Após ser presenteado pela Dra. Cri Cri com um ovo azul de plástico e recheado de grãos de feijão (na verdade era um instrumento musical ao estilo chocalho), Dr. Graxinha viu nele um método de abordagem e perguntou para as pessoas se eles queriam conhecer seu ovo azul (com todo respeito).

Já na entrada do salão do Hospital uma surpresa: Ao longe vinha em nossa direção um homem musculoso, jaqueta de couro, tatuado, barbudo com anéis em todos os dedos das mãos… e agora, abordar ou não? Sim! Na brincadeira do “você já viu meu ovo azul?” ele parou e interagiu. Disse que também tinha um ovo e do bolso puxou um Kider Ovo (aqueles que custam os zóios da cara, que vem com brinquedinho dentro de chocolate mesmo) e nos contou que tinha trazido para sua mãe, mas que chegou tarde. Ela teve uma piora e precisou ser internada às pressas na U.T.I.

Aquele homem que parecia bruto nos demonstrou o que já sabemos: as aparências enganam, pois naquele momento ele demonstrou sua sensibilidade e seus olhos encheram de lágrimas. Agradeceu o trabalho dos “palhaços” (vamos relevar essa parte) e nos pediu que aquele ovo de chocolate fosse passado a uma criança. Sabemos que não devemos aceitar comidas e também não devemos presentear os pacientes, mas naquele momento era IMPOSSÍVEL não aceitar.   Demos um abraço coletivo e foi a forma de dizer a ele: “desejamos que fique tudo bem” e nos despedimos. O ovo foi junto.

E aonde será que foi parar?

 

Parafusos – Por Dra. Sorridente

A acompanhante foi diagnosticada com riso frouxo altamente contagioso. Ela com tagarelice. Em poucos segundos contou seu nome, suas manias, o que gostava de fazer. Falou que de manhã estava tudo bem. Fez uma torta de bolacha gigante e ai teve o tal do piripaque. O famoso piripaque. Nos apresentou os colegas de quarto e falou, falou, falou. O marido chegou. “Como desliga a função fala?”. Sincero ele diz que se descobríssemos ele pagava o preço que fosse pela informação. Ela riu de se contorcer. Recuperou, respirou e nos disse que perdeu os parafusos. Ahhh esses parafusos.

Isabella era miúda. Pouco mais de 80 cm. No braço uma tala. Não falava nada, de início também não sorria. Somente os dedinhos abanando a denunciavam. Ela tinha gostado da gente. Sabe sombra? Ela foi. Onde íamos Isabella corria atrás. No fim dedinhos novamente acenavam e um sussurro de tchau escapou de sua boca.

E quem é essa que tá de jaleco, mas não usa o nariz, doutor? – Por Ligia A. Ferrony Rivas

– E quem é essa que tá de jaleco, mas não usa o nariz, doutor?  Pergunta o paciente ao doutor besteirologista, numa das visitas.

– Essa daqui é uma estagiária. Ela veio pra aprender! Responde o doutor besteirologista, com uma expressão de quem não tem muita certeza do que tá falando mas fala mesmo assim!

E essa pergunta e resposta se repete em muitas e muitas cenas. Vamos com os doutores nas visitas para observar suas intervenções, anotamos o número de leitos atendidos, número de quartos, perguntamos se há algum quarto que deve ser evitado, tiramos as fotos, estamos ali ao lado quando algo sai do controle. E falando assim pode até parecer desgastante, mas estar ao lado dos doutores em ação é balsâmico. Extasiante. É como se naquelas horas fôssemos convidadas de honra para entrar num mundo perfeitamente mágico e certamente divertido, no qual o poder do sorriso opera, remedia e cura.

Nosso conhecimento, enquanto psicólogas do Esquadrão, tem sido construído com muito cuidado, na interação com as demandas que vão surgindo. Nesses dez anos que o Esquadrão existe, muitos deles foram acompanhados pela Psicologia. Mas, como é costume, na nossa profissão, chegamos dispostas a observar e descobrir onde e como consolidaríamos nosso fazer. Aos poucos e com muito amor pelo grupo e pela causa, temos desbravado novas possibilidades e legitimado outras. Alguns pontos são claros no nosso fazer, atualmente. E se pudéssemos dizer que existem os dez mandamentos da Psicologia do Esquadrão da Alegria, seriam esses:

  1. Dar suporte aos membros que estiverem passando por dificuldades, sem poder conciliar seus fazeres com as atividades do Esquadrão.
  2. Participar no processo de seleção de novos integrantes, estando próximas aos candidatos, assim como acolher os integrantes, uma vez sejam selecionados.
  3. Participar, acompanhar e intervir  nas reuniões da diretoria, dando suporte e apoio psicológico a cada diretor auxiliando quando necessário nas tomadas de decisões.
  4. Acompanhar afastamentos e desligamentos.dos integrantes, dando suporte, avaliando possibilidades de retorno do integrante e diminuindo sentimento de culpa, desamparo ou pressão que possam existir.
  5. Ler relatórios de visitas, dos integrantes, avaliando e elencando pontos que devem ser socializados com o grupo.
  6. Participar de visitas, oficinas técnicas e reuniões. Fazer relatórios e dar feed back das visitas.
  7. Ajudar a construir oficinas (e eventualmente construir e ministrar) que possam aperfeiçoar atributos necessários para a ação dos clowns no ambiente hospitalar.
  8. Promover a aproximação do grupo para além dos dias oficiais a fim de que os vínculos de afeto e confiança fiquem mais fortalecidos.
  9. Transitar por todos os subgrupos que se formam por afinidade e manter uma linha de união que aproxime todos os subgrupos ao grande grupo.
  10. Ajudar de forma ampla em qualquer processo relativo aos eventos do esquadrão.

Porém, ser parte desse grupo abrange muito mais. A gente aprende e se surpreende a cada dia. Somos as maiores fãs dessas pessoas que dedicam parte da sua vida para aliviar os medos e dores dos outros.  Nas suas ações mostram que “amor” é verbo e não substantivo. Amor é fazer! Amor, no contexto do Esquadrão, é cuidado. Nós somos as que cuidamos desse grupo de “doutores em amor” para que eles possam cuidar dos pacientes. Cuidamos dos seus sorrisos para que eles possam fazer sorrir.

Finalmente, um profissional em Psicologia possui a escuta e a fala como duas ferramentas fundamentais para intervir. Acessamos ao paciente mediante esses recursos. O Clown, por outro lado, antes mesmo de chegar na porta do hospital, antes de falar qualquer coisa já traz na vestimenta e no nariz, a sua intervenção. Nós, psicólogas do Esquadrão sempre nos fascinamos quando vemos que o clown já vai andando e mudando a realidade do hospital sem sequer falar. É tanto sorriso que emerge só de ver um Clown chegando!!

Então, quando um doutor besteirologista diz para um paciente que “Ela é uma estagiária” referindo-se as psicos do Esquadrão, em pensamento concordamos: eles tem razão…por mais anos e experiência que tenhamos na Psicologia, o domínio do Clown é um domínio que contemplamos, aplaudimos mas sempre estaremos na borda, sempre estaremos na volta. Sempre estaremos aprendendo!

Esquadrão da Alegria participa de Conferência Distrital de Rotaract Club’s

A ONG Esquadrão da Alegria esteve presente na Codirc Black and White – Distrito 4780, a Conferência Distrital de Rotaract Club’s, que aconteceu nos dias 23 e 24 de junho, em Santiago, Rio Grande do Sul.

O evento tem como objetivo celebrar vivências e histórias dos 50 anos do Programa Rotaract e capacitar ainda mais jovens líderes.

O ONG foi convidada para falar um sobre os aprendizados no ambiente hospitalar que podem ser levados para qualquer ambiente. Claro que também teve muita consulta com as Dras. Besteirologistas, que garantiram o riso frouxo dos participantes.
Fotos: KayoeJana Machado

O mundo encantado do Hospital – Por Dra. Abelhuda

Estavam as Dras. Neneca Ling Ling e Abelhuda terminando sua visita no andar infantil quando, de repente surge no corredor nada menos que: UMA PRINCESA. Princesa de verdade, com direito a carruagem!

O vestido era de cetim cor de rosa e a carruagem  até lembrava uma cadeira de rodas, mas não para nós. A princesa é a Maria Cecília, no auge dos seus três aninhos. Não podíamos perder a oportunidade de acompanhar uma princesa  até o seu castelo (tem quem diga que era um quarto hospitalar, mas não pra nós).

A enfermeira, que nesse momento já era assistente de princesa, colocou ela na sua cama encantada, onde ficou sentadinha. Ela ainda não sabia quem eram aquelas Doutoras Besteirologistas, mas nós já éramos suas súditas. Os pezinhos e dedinhos, delicados como de costume para uma princesa, conversavam e interagiam entre si. Ela estava um pouco tímida, mas tranquila. Seus pais, rei e rainha, estavam muito felizes. Para eles, todo aquele momento já era real, tudo havia dado certo na cirurgia e agora a princesa estava no castelo.

Não sabíamos, mas a princesa Maria Cecília adorava bolhas de sabão. Nós, claro, atendemos ao seu desejo. Ela estourava com as mãos, pés, nariz… O castelo já estava cheio de luz e felicidade. A mãe, rainha, ria e chorava ao mesmo tempo. O pai, rei, já tinha virado fotógrafo registrando todos os momentos. Para nós, súditas, a despedida foi flutuando, energizadas e felizes.

Que momento em um castelo!

Quem diria! – Por Dra. Pitoka

Era um sábado comum de visitas ao hospital da Ulbra. Dr. Ado e eu, Dra. Pitoka, estávamos começando nosso plantão na UTI, como de costume. Chegando lá, fomos informados por uma enfermeira que não precisaríamos entrar em um dos quartos pois, segundo ela, o menino não entenderia nem conseguiria interagir conosco. Mas nós, Doutores Besteirologistas, duvidamos na hora e resolvemos conferir com nossos próprios olhos, ou melhor, com os nossos próprios narizes.

Ao entrar no quarto, nos deparamos com ele, um menino que não andava nem falava, mas nos olhava com um olhar puro, terno e feliz. Demonstrava em seus movimentos, a alegria de estar compartilhando aqueles minutos conosco!

Naquele dia, descobrimos que ele gostava muito de funk, era só começar a cantar, que ele já dançava, ao seu modo, mostrando que sabia bem o que estava fazendo. Iniciou aí uma bela amizade entre eles e os Doutores. Nas visitas seguintes, a festa só aumentava e a sintonia entre ele e os Doutores ficava cada vez melhor! Era sempre uma alegria pra nós, saber que o encontraríamos por lá.

Até que um dia, ao chegar no Hospital, encontramos o quartinho dele vazio. Seguimos nossa visita pela UTI, procurando ele, mas não o encontramos. Ficamos aflitos, sem saber o que havia acontecido. Nesse momento, o coração de Besteirologista também aperta.

Saímos da UTI e fomos em direção aos quartos de recuperação. Entramos em dois ou três quartos, atendendo aos pacientes, até que: TCHARAM!!

Encontramos o nosso amigo. Ele havia saído da UTI e estava se recuperando para ir pra casa. Que alívio! E que alegria poder brincar, cantar e dançar com ele. Soubemos pela mãe dele como estava feliz em saber que iria pra casa.

O tempo passou, as visitas, claro, continuaram, até que um dia, não encontramos mais ele nos quartos de recuperação.

– Foi pra casa!

Saber que um paciente foi pra casa, apesar da saudade, é uma realização e tanto.  Seguimos ao posto de enfermagem, para encerrar o plantão e avistamos um mural fixado na parede, e nele: uma cartinha.

Era uma cartinha escrita pela mãe do nosso amigo. Ela dizia que haviam ido pra casa, escrevendo em nome dele, agradecendo a toda equipe do hospital, citando o nome dos médicos e enfermeiros que cuidaram dele todo o tempo em que esteve lá.

Ao final da carta, constava um último agradecimento: aos “palhacinhos”, por terem colaborado com a  sua recuperação. A emoção foi inevitável. Naquele momento, sentimos uma gratidão tão imensa por ter tido a oportunidade de conhecer aquele garoto e desfrutar de sentimentos tão puros e sinceros.

E quem diria: aquele garoto que, supostamente, não nos entenderia, acabou se tornando o nosso eterno amigo. E nossa amizade ficará para sempre eternizada naquela carta.

 

Espera e conexão – Por Dra. Assuntina

Por várias vezes durante a visita passamos por umas quatro pessoas no corredor, que estavam aguardando alguma notícia da sala de cirurgia.

Escoradas na  parede, ansiosas, um olhar que parecia preocupado mesmo. Não é muito fácil ser especialista em besteiras nessa hora, mas conseguimos de leve quebrar um pouquinho da tensão com um olhar, um sorriso e sabendo a hora certa de se retirar também.

No final da visita, depois de muitos diagnósticos besteirólogicos para os mais diversos pacientes, lá estavam eles ainda, na porta da sala cirúrgica. Antes de entrarmos no último quarto, eu, Dra. Assuntina, pude ver a enfermeira saindo pela porta. Aquela aflição já era minha também e aí veio a frase:

– A Rafa está linda!

Aquilo imediatamente foi traduzido como “deu tudo certo”. Eu, esperando a Dra. Abelhuda abrir a porta do último quarto, estava muito próxima da família da Rafa quando receberam a notícia.

Pude sentir a respiração de alívio e a emoção deles. Senti junto, lembrei de momentos além da Besteirologia, me vi mãe naquela situação mesmo que por um instante. Dra. Assuntina, quando menos percebi, já estava emocionada com eles, olhei e senti uma conexão imediata como quem diz: “eu sinto o que você sente e sei como é”.

Não precisamos palavras, eles entenderam e eu segui para o encontro da minha colega Dra. Abelhuda para seguir o plantão.

 

O Esquadrão da Alegria completa nove anos de atuação e agora é ONG

 

O Esquadrão da Alegria completou, em dezembro, nove anos de atuação. No aniversário o grupo anunciou que se tornou ONG registrada. Mais que uma titulação, é a representação de um trabalho comprometido e responsável.

O grupo surgiu após um de seus fundadores assistir o documentário do grupo Doutores da Alegria e se contagiar com a proposta, levando o projeto adiante. O objetivo é proporcionar alegria através da figura do palhaço, colaborando para a transformação do ambiente hospitalar.

O apoio inicial veio de várias pessoas no primeiro ano de preparação, mas somente oito integrantes começaram as atividades do grupo no dia 03 de dezembro de 2008, quando foi realizada a 1ª visita no Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), em parceria com a Associação dos Amigos do HUSM.

No início a proposta era apenas na cidade de Santa Maria, mas de lá para cá, diversas pessoas foram se unindo a causa voluntária, e surgiu a oportunidade de expansão para outras cidades do Rio Grande do Sul.

O trabalho é realizado de maneira 100% voluntária, sem necessidade de qualquer investimento por parte dos hospitais atendidos. Os integrantes são profissionais das mais diversas áreas e idades que se transformam em ‘palhaços doutores’ para as visitas.

Durante os nove anos de atuação o grupo sempre contou com diversos apoiadores e patrocinadores que colaboram para o aperfeiçoamento e desenvolvimento do trabalho. São realizados cursos, oficinas e integrações de forma contínua, profissionalizando ainda mais os participantes.

Para tornar-se um integrante existe um processo seletivo composto por diversas etapas, onde os candidatos são avaliados com dinâmicas para analise do perfil e disposição. Após aprovados na seleção, os voluntários ainda passam por outras etapas, que consistem em estudos, oficinas e acompanhamento, até tonarem-se Doutores Besteiorologistas.

O grupo acredita no poder do sorriso e, se no início as visitas eram apenas para crianças e adolescentes, hoje o trabalho está mais abrangente. O Esquadrão da Alegria atinge os mais diversos públicos, além da dedicação aos acompanhantes dos pacientes, aos profissionais dos hospitais visitados e a cada pessoa na rua e nos corredores dos hospitais, antes e depois, das visitas.