E quem é essa que tá de jaleco, mas não usa o nariz, doutor? – Por Ligia A. Ferrony Rivas

– E quem é essa que tá de jaleco, mas não usa o nariz, doutor?  Pergunta o paciente ao doutor besteirologista, numa das visitas.

– Essa daqui é uma estagiária. Ela veio pra aprender! Responde o doutor besteirologista, com uma expressão de quem não tem muita certeza do que tá falando mas fala mesmo assim!

E essa pergunta e resposta se repete em muitas e muitas cenas. Vamos com os doutores nas visitas para observar suas intervenções, anotamos o número de leitos atendidos, número de quartos, perguntamos se há algum quarto que deve ser evitado, tiramos as fotos, estamos ali ao lado quando algo sai do controle. E falando assim pode até parecer desgastante, mas estar ao lado dos doutores em ação é balsâmico. Extasiante. É como se naquelas horas fôssemos convidadas de honra para entrar num mundo perfeitamente mágico e certamente divertido, no qual o poder do sorriso opera, remedia e cura.

Nosso conhecimento, enquanto psicólogas do Esquadrão, tem sido construído com muito cuidado, na interação com as demandas que vão surgindo. Nesses dez anos que o Esquadrão existe, muitos deles foram acompanhados pela Psicologia. Mas, como é costume, na nossa profissão, chegamos dispostas a observar e descobrir onde e como consolidaríamos nosso fazer. Aos poucos e com muito amor pelo grupo e pela causa, temos desbravado novas possibilidades e legitimado outras. Alguns pontos são claros no nosso fazer, atualmente. E se pudéssemos dizer que existem os dez mandamentos da Psicologia do Esquadrão da Alegria, seriam esses:

  1. Dar suporte aos membros que estiverem passando por dificuldades, sem poder conciliar seus fazeres com as atividades do Esquadrão.
  2. Participar no processo de seleção de novos integrantes, estando próximas aos candidatos, assim como acolher os integrantes, uma vez sejam selecionados.
  3. Participar, acompanhar e intervir  nas reuniões da diretoria, dando suporte e apoio psicológico a cada diretor auxiliando quando necessário nas tomadas de decisões.
  4. Acompanhar afastamentos e desligamentos.dos integrantes, dando suporte, avaliando possibilidades de retorno do integrante e diminuindo sentimento de culpa, desamparo ou pressão que possam existir.
  5. Ler relatórios de visitas, dos integrantes, avaliando e elencando pontos que devem ser socializados com o grupo.
  6. Participar de visitas, oficinas técnicas e reuniões. Fazer relatórios e dar feed back das visitas.
  7. Ajudar a construir oficinas (e eventualmente construir e ministrar) que possam aperfeiçoar atributos necessários para a ação dos clowns no ambiente hospitalar.
  8. Promover a aproximação do grupo para além dos dias oficiais a fim de que os vínculos de afeto e confiança fiquem mais fortalecidos.
  9. Transitar por todos os subgrupos que se formam por afinidade e manter uma linha de união que aproxime todos os subgrupos ao grande grupo.
  10. Ajudar de forma ampla em qualquer processo relativo aos eventos do esquadrão.

Porém, ser parte desse grupo abrange muito mais. A gente aprende e se surpreende a cada dia. Somos as maiores fãs dessas pessoas que dedicam parte da sua vida para aliviar os medos e dores dos outros.  Nas suas ações mostram que “amor” é verbo e não substantivo. Amor é fazer! Amor, no contexto do Esquadrão, é cuidado. Nós somos as que cuidamos desse grupo de “doutores em amor” para que eles possam cuidar dos pacientes. Cuidamos dos seus sorrisos para que eles possam fazer sorrir.

Finalmente, um profissional em Psicologia possui a escuta e a fala como duas ferramentas fundamentais para intervir. Acessamos ao paciente mediante esses recursos. O Clown, por outro lado, antes mesmo de chegar na porta do hospital, antes de falar qualquer coisa já traz na vestimenta e no nariz, a sua intervenção. Nós, psicólogas do Esquadrão sempre nos fascinamos quando vemos que o clown já vai andando e mudando a realidade do hospital sem sequer falar. É tanto sorriso que emerge só de ver um Clown chegando!!

Então, quando um doutor besteirologista diz para um paciente que “Ela é uma estagiária” referindo-se as psicos do Esquadrão, em pensamento concordamos: eles tem razão…por mais anos e experiência que tenhamos na Psicologia, o domínio do Clown é um domínio que contemplamos, aplaudimos mas sempre estaremos na borda, sempre estaremos na volta. Sempre estaremos aprendendo!

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