Quem diria! – Por Dra. Pitoka

Era um sábado comum de visitas ao hospital da Ulbra. Dr. Ado e eu, Dra. Pitoka, estávamos começando nosso plantão na UTI, como de costume. Chegando lá, fomos informados por uma enfermeira que não precisaríamos entrar em um dos quartos pois, segundo ela, o menino não entenderia nem conseguiria interagir conosco. Mas nós, Doutores Besteirologistas, duvidamos na hora e resolvemos conferir com nossos próprios olhos, ou melhor, com os nossos próprios narizes.

Ao entrar no quarto, nos deparamos com ele, um menino que não andava nem falava, mas nos olhava com um olhar puro, terno e feliz. Demonstrava em seus movimentos, a alegria de estar compartilhando aqueles minutos conosco!

Naquele dia, descobrimos que ele gostava muito de funk, era só começar a cantar, que ele já dançava, ao seu modo, mostrando que sabia bem o que estava fazendo. Iniciou aí uma bela amizade entre eles e os Doutores. Nas visitas seguintes, a festa só aumentava e a sintonia entre ele e os Doutores ficava cada vez melhor! Era sempre uma alegria pra nós, saber que o encontraríamos por lá.

Até que um dia, ao chegar no Hospital, encontramos o quartinho dele vazio. Seguimos nossa visita pela UTI, procurando ele, mas não o encontramos. Ficamos aflitos, sem saber o que havia acontecido. Nesse momento, o coração de Besteirologista também aperta.

Saímos da UTI e fomos em direção aos quartos de recuperação. Entramos em dois ou três quartos, atendendo aos pacientes, até que: TCHARAM!!

Encontramos o nosso amigo. Ele havia saído da UTI e estava se recuperando para ir pra casa. Que alívio! E que alegria poder brincar, cantar e dançar com ele. Soubemos pela mãe dele como estava feliz em saber que iria pra casa.

O tempo passou, as visitas, claro, continuaram, até que um dia, não encontramos mais ele nos quartos de recuperação.

– Foi pra casa!

Saber que um paciente foi pra casa, apesar da saudade, é uma realização e tanto.  Seguimos ao posto de enfermagem, para encerrar o plantão e avistamos um mural fixado na parede, e nele: uma cartinha.

Era uma cartinha escrita pela mãe do nosso amigo. Ela dizia que haviam ido pra casa, escrevendo em nome dele, agradecendo a toda equipe do hospital, citando o nome dos médicos e enfermeiros que cuidaram dele todo o tempo em que esteve lá.

Ao final da carta, constava um último agradecimento: aos “palhacinhos”, por terem colaborado com a  sua recuperação. A emoção foi inevitável. Naquele momento, sentimos uma gratidão tão imensa por ter tido a oportunidade de conhecer aquele garoto e desfrutar de sentimentos tão puros e sinceros.

E quem diria: aquele garoto que, supostamente, não nos entenderia, acabou se tornando o nosso eterno amigo. E nossa amizade ficará para sempre eternizada naquela carta.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *